IMPRENSA

< Voltar

Folha de São Paulo (Segunda-feira - 17/09/2018)

Consumidor tenta melhorar nota de crédito para conseguir empréstimo

Empresas esperam que o uso da pontuação se intensifique por causa do cadastro positivo

Por Filipe Oliveira e Anaïs Fernandes

Consumidores vêm percebendo que só ter o nome limpo pode não ser o suficiente para conseguir crédito.

Além de consultar informações nos cadastros de devedores, quem empresta também avalia o score de seus clientes, uma pontuação que vai de 0 a 1.000 e indica o risco de ele não pagar a conta —quanto menor a nota, maior o risco.

A ferramenta ficou mais conhecida após empresas que atribuem essas notas permitirem que o consumidor consultasse seu score pela internet.

A página da Boa Vista SCPC, que permite a checagem desde 2017, recebe por mês mais de 1 milhão de visitas de pessoas que querem saber sua nota.

Consumidores que descobriram que têm nota baixa estão procurando os bureaus de crédito para descobrir como elevar suas pontuações.

A assistente administrativa Carla Rocha, 23, foi até a Serasa em São Paulo levar comprovante de endereço e de renda para tentar melhorar sua nota na última quinta-feira (13).

Ela quer financiar um carro, mas não consegue porque seu score está próximo de 200. Carla emitiu boletos na internet e, depois de desistir do que iria comprar não pagou. Além disso, tem poucas contas em seu nome —fazer pagamentos em dia ajuda a aumentar a pontuação.

A empresária Ana Maria Vaz de Almeida, 57, conta que melhorou sua pontuação de 238 pontos para mais de 800 em nove meses. “Hoje tenho carro financiado, tenho cartão de crédito, tudo.”

Para conseguir isso, atualizou informações junto à Serasa e aderiu ao cadastro positivo, banco de dados com informações sobre empréstimos e contas do consumidor.

Segundo o SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito), o número de consumidores que aderiram ao cadastro positivo pulou de cerca de 6 milhões, há um ano, para 11 milhões.

Mesmo com a alta, empresas do setor consideram a quantidade baixa para que o cadastro tenha impacto no mercado. As companhias apoiam uma lei que tramita no Congresso e torna a entrada no cadastro automática.

Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper, diz que o uso de notas de crédito por consumidores é comum nos Estados Unidos e ainda está em estado incipiente no Brasil.

“Com o tempo, os consumidores vão reconhecer o score como algo de que você cuida, porque vale dinheiro. Se seu score sobe, tem mais crédito, taxas menores e menos burocracia”, diz Rodrigo Abreu, presidente do Quod (bureau lançado neste ano com grandes bancos como acionistas).

Apesar das promessas de que essas ferramentas podem gerar mais justiça na concessão de crédito, entidades que defendem consumidores têm críticas em relação a elas.

Rafael Zanatta, líder do programa de direitos digitais do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), diz que o caso brasileiro é muito diferente do americano, onde há uma lei federal sobre como fazer a pontuação justa do consumidor, com dispositivos para garantir a não discriminação por questões sociais, raciais e de gênero.

Segundo ele, o consumidor tem o direito de obter um relatório com os elementos utilizados para formar seu score.

Em vez disso, no Brasil recebe informações genéricas, como de que ele deve colocar a conta de luz em débito automático, afirma Zanatta.

Renata Reis, coordenadora das áreas técnicas do Procon-SP, acrescenta que, além de não ter informações adequadas, o consumidor ainda não se beneficia de juros mais baixos quando tem boa nota.

“A promessa de que o bom pagador vai ser beneficiado não vem sendo cumprida”, diz.

As empresas de proteção de crédito afirmam que é uma questão de tempo até que os consumidores entendam a importância do score.

“Tudo o que é novo gera dúvidas. Mas investimos em conteúdo para ajudar o consumidor a entender o que é levado em conta”, diz Matheus Moura, do Serasa Consumidor.

Segundo ele, empresas já estão definindo juros de acordo com a pontuação do cliente, e consumidores que usam ferramenta de comparação de empréstimos recebem propostas diferentes dos bancos.

Pablo Nemirovsky, superintendente de serviços ao consumidor da Boa Vista SCPC, diz que existem dúvidas sobre o score por ele ser um assunto novo para a maior parte dos consumidores brasileiros.

Segundo ele, em países em que já existe cultura do uso da ferramenta, os consumidores já sabem o que fazer para aumentar a pontuação.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/09/consumidor-tenta-melhorar-nota-de-credito-para-conseguir-emprestimo.shtml




Folha de São Paulo (Segunda-feira - 17/09/2018)

Justiça vai poder penhorar investimento em título público de devedores

Medida é mais um passo do cerco da Justiça e do Banco Central contra quem oculta patrimônio

Por Tássia Kastner

Devedores poderão ter investimentos em títulos públicos no Tesouro Direto penhorados eletronicamente para quitar dívidas. É mais um passo do cerco da Justiça e do Banco Central contra quem oculta patrimônio para evitar execução de cobranças judiciais.

A medida vale para cobranças de todos os tipos de dívidas cobradas na Justiça, de causas trabalhistas e atraso no pagamento de pensão alimentícia, a ações de indenizações contra empresas.

O bloqueio é feito por meio do sistema Bacen Jud, que vem progressivamente enxergando um maior número de bens financeiros de devedores. Desde o começo do ano, foram incluídos no rol de ativos que podem ser penhorados cotas em fundos de investimentos, títulos de dívida privada (como CDBs e debêntures) e ações. Agora, entraram aplicações em títulos do governo.

“O Bacen Jud era meio míope porque bloqueava ativos, mas não todos. Antes eram só conta corrente, poupança e conta salário”, diz Fabio Ozi, sócio do escritório Mattos Filho, especializado em contencioso e arbitragem.

Com isso, devedores que sabiam de uma ordem de execução de dívida retiravam dinheiro da conta antes e realizavam aplicações para driblar a cobrança, explica.

Ozi considera que o sistema vai ajudar na cobrança de devedores mais sofisticados, que conhecem melhor o mercado financeiro e usavam essas estratégias de aplicações financeiras para ocultar patrimônio.

Antonio Carlos de Oliveira Freitas, sócio do Luchesi Advogados, se diz entusiasta da penhora eletrônica, mas vê riscos de danos a pessoas que eventualmente sejam envolvidas no processo de cobrança injustamente.

No caso de resgate indevido das aplicações financeiras, pode haver prejuízo difícil de ser revertido, como o pagamento de alíquota elevada de Imposto de Renda ou a perda de uma taxa de juros contratada em um título de renda fixa que pode não mais existir nas novas condições de mercado, exemplifica.

“As vezes, não por má fé, o advogado coloca um número de CPF que não é responsável pela dívida. Ainda que retorne o valor do investimento, não vai retornar a aplicação. Isso pode gerar risco”, argumenta.

Também sócia do escritório Mattos Filho, Larissa Arruy, especializada em bancos e serviços financeiros, vê a inclusão de títulos públicos como um redutor de riscos.

Ela explica que, como a penhora sempre envolve a venda de bens para transformá-los em dinheiro que quitará a dívida, o sistema bloqueará sempre os ativos de maior liquidez.

“Quando o devedor tem vários bens no patrimônio. Começa pelo que é mais líquido”, diz.

Na prática, isso significa que o sistema continuaria primeiro bloqueando o dinheiro em conta corrente e privilegiaria títulos públicos atrelados a taxa de juros, que não têm taxa de juros prefixada. Isso minimizaria o risco de prejuízos em casos de cobrança indevida.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/09/justica-vai-poder-penhorar-investimento-em-titulo-publico-de-devedores.shtml

DESENVOLVIDO POR CONCEPTONE

LUCHESI ADVOGADOS 2015 - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS